Fraude combina dados reais de processos com ligações e perfis falsos para cobrar taxas inexistentes de quem aguarda valores da Justiça

O golpe do falso advogado ganhou uma nova estratégia para enganar as vítimas: a falsificação do número de telefone exibido na tela do celular. Conhecida como falsificação de identificação de chamadas, a técnica permite que criminosos façam ligações que aparentam vir do advogado responsável pelo processo ou do próprio escritório, mesmo quando a chamada tem outra origem.
A fraude se torna mais convincente porque os golpistas também utilizam informações verdadeiras de ações judiciais, como nomes de clientes, números de processos e movimentações recentes. Com esses dados, informam a vítima sobre uma suposta liberação de indenizações, precatórios ou outros créditos e exigem pagamentos antecipados para liberar o dinheiro.
Em fevereiro de 2026, a Ordem dos Advogados do Brasil em São Paulo (OAB-SP) informou ter recebido 4.388 denúncias relacionadas ao golpe em pouco mais de um ano e meio.
“O acesso a informações reais do processo não comprova que a pessoa que entrou em contato seja quem diz ser. Mesmo quando o número exibido na tela é conhecido, o cliente deve confirmar a solicitação por outro canal antes de qualquer decisão”, afirma Carla Reis, supervisora de Atendimento e Comunicação da Aparecido Inácio e Pereira Advogados Associados
Como funciona a nova estratégia
A identificação durante uma ligação é manipulada para que o celular da vítima exiba um número diferente daquele de onde a chamada realmente se origina. Em determinadas situações, o nome associado ao contato salvo na agenda também aparece na tela, aumentando a sensação de segurança.
A técnica não exige necessariamente que o telefone do advogado tenha sido invadido ou clonado. Os criminosos podem falsificar a identificação da chamada e combinar essa estratégia com informações obtidas em sistemas processuais de acesso público, redes sociais e outras fontes.
Com esses dados, simulam contatos profissionais e afirmam que houve uma decisão favorável ou que determinado valor está disponível para recebimento. Em seguida, cobram supostas taxas, impostos, custas cartorárias ou despesas administrativas, geralmente por Pix. O dinheiro, porém, é direcionado a contas controladas por fraudadores.
“Os criminosos combinam informações verdadeiras com uma identidade falsa para dar credibilidade à abordagem. Por isso, conhecer detalhes do processo ou exibir o número do advogado na tela não é suficiente para garantir que o contato seja legítimo”, explica a especialista.
Perfis falsos e cobranças urgentes
O golpe se soma a outras práticas já utilizadas nesse tipo de fraude. Os criminosos podem criar perfis falsos no WhatsApp com o nome e a fotografia do advogado, apresentar-se como integrantes do departamento financeiro do escritório ou até simular o contato de servidores de tribunais.
Também enviam documentos falsificados, como alvarás e decisões judiciais, além de links para páginas fraudulentas que solicitam dados pessoais e bancários. Em alguns casos, o objetivo vai além de obter uma transferência, os dados coletados podem ser utilizados em outras fraudes.
Por isso, pedidos de pagamento com prazo curto, pressão para realizar um Pix imediatamente, depósitos em contas de terceiros e solicitações de senhas ou códigos de autenticação são sinais de alerta.
Como se proteger
A principal recomendação é não confiar apenas no número exibido na tela do celular, no nome do contato ou nos documentos apresentados. Ao receber uma ligação ou mensagem inesperada sobre a liberação de valores judiciais, o cliente deve encerrar o contato e procurar o advogado por um canal alternativo.
O telefone pode ser consultado no contrato de prestação de serviços ou no site oficial do escritório. Também é possível recorrer a conversas anteriores cuja autenticidade seja conhecida. Retornar a ligação diretamente pelo histórico de chamadas suspeitas não é a opção mais segura.
Outra medida é consultar o andamento do processo no portal oficial do tribunal responsável e confirmar com o advogado a origem e a finalidade de qualquer cobrança. Antes de efetuar um pagamento, também é importante verificar a titularidade da conta indicada.
A ferramenta ConfirmADV, disponibilizada pela OAB, permite verificar se um profissional está regularmente inscrito na advocacia. Essa consulta, porém, não substitui a confirmação direta de uma solicitação financeira.
“Antes de transferir qualquer quantia, o cliente deve confirmar com o escritório se a cobrança existe e a que ela se refere. Não se deve fazer pagamentos apenas com base em uma ligação ou mensagem, mesmo quando o contato parece conhecido”, orienta Carla Reis.
O que fazer em caso de fraude
Quem receber uma abordagem suspeita deve guardar mensagens, áudios, capturas de tela, números utilizados e documentos enviados. A tentativa pode ser comunicada ao escritório cuja identidade foi utilizada e à Polícia Civil, por meio de boletim de ocorrência. Também é recomendável informar a OAB.
Se já tiver realizado uma transferência via Pix, a vítima deve procurar imediatamente o banco pelos canais oficiais, relatar a fraude e solicitar a análise para eventual devolução pelo Mecanismo Especial de Devolução (MED). O procedimento não garante a recuperação do dinheiro, pois o resultado depende das condições da operação e da disponibilidade dos recursos.
“Com a falsificação da identificação telefônica, a conferência do número já não basta, é preciso verificar a solicitação por um canal independente antes de compartilhar dados ou realizar qualquer transferência de valores”, finaliza Carla Reis.
Sobre o escritório Aparecido Inácio e Pereira Advogados Associados
O escritório Aparecido Inácio e Pereira Advogados Associados (AIP) com sede na capital de São Paulo está presente há mais de três décadas, atuando com dedicação e comprometimento em defesa dos servidores públicos e de suas causas. Atende causas de direito trabalhista, público e sindical.
