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Inteligência artificial muda a forma de contratar e cobrar por serviços jurídicos nas empresas

Com a automação de contratos e consultas, escritórios enfrentam o desafio de demonstrar valor para além das horas trabalhadas, enquanto empresas passam a exigir uma atuação mais estratégica de seus advogados

duas pessoas em pé sorrindo diante de painel azul com o texto "FENALAW 26"; ambas usam crachás e há cadeiras brancas nas laterais

A inteligência artificial está provocando uma mudança na relação entre empresas e escritórios de advocacia. Com ferramentas capazes de elaborar contratos, responder consultas e analisar documentos em poucos minutos, atividades que antes exigiam horas de trabalho passaram a ser executadas com maior velocidade. O avanço, porém, trouxe uma discussão que vai além da produtividade: se a tecnologia reduz o tempo necessário para realizar determinadas tarefas, como os profissionais devem demonstrar e cobrar pelo valor do serviço prestado?

A questão ganha relevância à medida que departamentos jurídicos incorporam ferramentas de inteligência artificial às próprias rotinas. Em vez de recorrer aos escritórios para todas as demandas, empresas já conseguem produzir análises preliminares, elaborar documentos e organizar informações internamente, solicitando posteriormente a revisão ou validação de um advogado. Essa dinâmica modifica o fluxo tradicional de contratação e exige uma redefinição das responsabilidades envolvidas em cada etapa.

Para Luis Felipe, sócio fundador do b/luz, escritório de advocacia especializado em tecnologia e negócios, a transformação representa uma nova etapa de um processo iniciado com a popularização da internet, quando o acesso à informação jurídica deixou de depender exclusivamente dos advogados.

“Durante muito tempo, o advogado foi visto como alguém que detinha um conhecimento ao qual o cliente não tinha acesso. A internet democratizou esse conhecimento, mas ainda era necessário um profissional para aplicá-lo. Agora, a inteligência artificial também consegue executar parte desse trabalho, elaborar contratos e responder consultas. Isso nos obriga a repensar o que efetivamente entregamos aos clientes e onde está o valor da nossa atuação”, explica.

A discussão foi abordada pelo e por Andressa Bizutti, sócia do b/luz com atuação em mídia, publicidade, plataformas digitais e inteligência artificial, durante a Fenalaw, evento do setor jurídico realizado em São Paulo.

Na avaliação dos especialistas, uma das principais consequências dessa transformação está na precificação dos serviços. Historicamente, parte da advocacia empresarial estruturou seus honorários com base na quantidade de horas dedicadas a cada demanda. Com a automação, entretanto, o tempo gasto na elaboração de um documento deixa de representar, isoladamente, a complexidade do trabalho ou a responsabilidade assumida pelo profissional.

Um contrato produzido em poucos minutos por uma ferramenta de IA, por exemplo, ainda pode exigir conhecimento especializado para identificar riscos regulatórios, avaliar impactos comerciais, negociar condições e verificar se as cláusulas atendem às necessidades da empresa. A rapidez na execução não elimina essas etapas e tampouco transfere à tecnologia a responsabilidade pelas decisões tomadas.

“O cliente não contrata um advogado simplesmente para receber um documento. Ele precisa resolver um problema. Se conseguimos fazer isso em menos tempo, com o apoio da tecnologia e do conhecimento acumulado ao longo de anos, o serviço não necessariamente passa a valer menos. Precisamos começar a discutir o valor da solução entregue, e não apenas quantas horas foram necessárias para chegar até ela”, afirma Andressa.

Essa mudança também coloca os departamentos jurídicos diante de novas decisões. Ao utilizar ferramentas de IA para realizar atividades anteriormente terceirizadas, as empresas precisam estabelecer quais tarefas podem ser automatizadas, quais exigem supervisão e em que situações a participação de um especialista continua indispensável. A definição desses limites torna-se especialmente importante em operações que envolvem informações confidenciais, obrigações regulatórias e riscos financeiros.

Segundo Luis Felipe, a tecnologia apresenta limitações justamente em situações nas quais a resposta juridicamente mais conservadora não corresponde necessariamente à melhor decisão empresarial. Uma operação pode envolver riscos conhecidos e ainda assim ser viável, desde que a companhia compreenda suas consequências e estabeleça mecanismos adequados de proteção.

“A inteligência artificial pode identificar riscos e apresentar alternativas, mas a decisão jurídica precisa considerar o contexto do negócio. Nem sempre a solução de menor risco é a mais adequada para uma empresa. Existe uma avaliação sobre o que é aceitável, quais são os objetivos comerciais e quais consequências aquela decisão pode produzir. É nesse ponto que o conhecimento técnico, associado à compreensão do cliente, continua fazendo diferença”, observa.

Da elaboração de contratos ao acompanhamento das operações

A incorporação da inteligência artificial também permite que a advocacia amplie sua participação na rotina das empresas. Em vez de atuar somente quando surge uma consulta ou quando um contrato precisa ser elaborado, escritórios podem utilizar sistemas tecnológicos para acompanhar obrigações contratuais, organizar informações e identificar situações que demandem atenção jurídica ao longo da execução dos negócios.

No b/luz, essa transformação levou ao desenvolvimento de uma solução de inteligência de contratos, posteriormente estruturada em uma empresa de tecnologia, a ELIEX.AI . A proposta é permitir que o acompanhamento jurídico continue após a assinatura dos documentos, integrando tecnologia e conhecimento especializado à gestão contratual dos clientes.

Outro exemplo discutido pelos especialistas envolve o desenvolvimento de agentes de inteligência artificial capazes de responder dúvidas recorrentes relacionadas à publicidade e ao uso de conteúdos de terceiros. Nesse modelo, questões simples podem receber respostas automatizadas, enquanto situações mais complexas são encaminhadas para análise humana.

A aplicação demonstra como a tecnologia pode modificar a distribuição das atividades jurídicas. Demandas repetitivas deixam de consumir parte significativa do tempo dos profissionais, enquanto questões que exigem interpretação, negociação e avaliação de riscos permanecem sob responsabilidade dos especialistas.

Para Andressa, o desafio não está apenas na capacidade técnica das ferramentas, mas na maneira como elas são incorporadas à estrutura das organizações. A utilização de agentes de IA exige bases de conhecimento confiáveis, atualização constante das informações, critérios de supervisão e cuidados com a segurança dos dados utilizados.

A perspectiva é que equipes jurídicas passem a combinar profissionais e agentes tecnológicos, distribuindo atividades de acordo com a complexidade e as competências necessárias. Nesse cenário, a capacidade de supervisionar resultados, interpretar informações e compreender as particularidades de cada negócio tende a ganhar importância.

Mais do que acelerar a produção de documentos, a inteligência artificial coloca em discussão o próprio modelo de prestação de serviços jurídicos. Para empresas e escritórios, o desafio será encontrar formas de aproveitar os ganhos de eficiência sem reduzir a qualidade da orientação jurídica, a segurança das operações e a responsabilidade pelas decisões.

“A tecnologia não elimina a necessidade de conhecimento. Pelo contrário, quanto mais utilizamos inteligência artificial, maior precisa ser nossa capacidade de avaliar criticamente o que ela produz. O futuro da advocacia passa por equipes formadas por pessoas e agentes de IA, em que cada um contribui com aquilo que faz melhor”, conclui Luis Felipe.

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