A água é um dos bens naturais mais preciosos da Terra. O ser humano infelizmente só percebe isso quando ela está em falta. Apesar de no Brasil grande parte da população ter acesso a esse líquido vital, nem todos os cidadãos bebem água de qualidade.

Ainda que não tenha cheiro, gosto ou cor, em diversas localidades do país não é assim que a água se apresenta. Principalmente em regiões mais pobres e com menos saneamento básico ela é escura, muitas vezes misturada ao barro, o que oferece inúmeros perigos à saúde.

Contudo a baixa qualidade da água não é um problema que atinge apenas partes da população brasileira. Há estudos que comprovam que a água que chega às torneiras do consumidor de classe média também não é assim tão pura. A verdade é que no Brasil é mesmo fundamental ter um purificador de água em casa.

Agrotóxicos, cocaína e hormônios: o estado da água no Brasil

A Unicamp e o seu Instituto de Química investigaram as águas de esgotos, rios, lagos e mesmo aquelas que abastecem as residências da Região Metropolitana de Campinas. Ainda que você não sinta cheiro ou gosto, tampouco veja qualquer coisa de estranho, foram encontradas 58 compostos diferentes.

Cocaína é o pior que os pesquisadores encontraram, porém inseticidas e pesticidas agrícolas, assim como hormônios e medicamentos. Esse estudo foi realizado durante 10 anos.

Essa pesquisa não é a única a comprovar esse grave problema. Um segundo estudo, cujos resultados foram divulgados em abril, revelou que um a cada quatro municípios do Brasil tem em suas águas uma mistura poderosa de agrotóxicos.

De acordo com as autoridades responsáveis, todas as empresas de abastecimento dos municípios precisam testar se a água que chega aos cidadãos é de qualidade. Os dados precisam ser enviados para um banco de dados, em que serão armazenados e posteriormente consultados.

Durante o período de 2014 a 2017 foram encontrados vestígios de quase 30 tipos diferentes de agrotóxicos nas águas de 1396 municípios. Isso é o equivalente a praticamente um quarto das cidades do país.

Das 27 substâncias encontradas na água no período em que o estudo foi realizado, 21 são proibidas em toda a Europa.

Riscos à saúde da população

As autoridades afirmam que as concentrações dos agrotóxicos encontradas nas análises das águas de todo o país estão dentro do limite permitido. É ingênuo pensar, contudo, que isso não causa algum tipo de prejuízo à saúde da população.

O problema nesse caso não é a quantidade de agrotóxicos, mas sim o tempo de exposição das pessoas a esses químicos. Estima-se que há décadas essas substâncias façam parte do dia a dia do brasileiro, mesmo que ele não note isso.

O pesticida conhecido como atrazina, por exemplo. Ele está presente em mais de 70% das amostras coletadas pelos estudos. Quanto mais o ser humano é exposto a ele e a outros disruptores hormonais, mais chances tem de desenvolver câncer de mama, de útero, de testículo e de tireoide.

Além disso, esses químicos são responsáveis pela queda na fertilidade de homens e de mulheres, bem como pelo ingresso precoce na puberdade. É por isso, segundo especialistas, que as mulheres estão menstruando antes do que deveriam no Brasil.

O problema dos agrotóxicos

Os agrotóxicos são os grandes vilões da história recente do Brasil. Estima-se que mais de cinco centenas de químicos do gênero sejam usados atualmente no país, embora apenas 27 passem por monitoramento.

Como se não bastasse isso, infelizmente grande parte dos municípios descumpre as leis e não realiza os testes necessários em relação à qualidade da água que oferecem a sua população.

Outra complicação é que o Brasil é muito tolerante com os agrotóxicos. Em relação à Europa, por exemplo, os níveis tolerados desses químicos é cinco mil vezes maior.

Uma vez que 23% das amostras divulgadas no último estudo seriam impróprias para consumo na Europa, mas apenas 0,02% seria imprópria no Brasil, podemos compreender que os europeus não considerariam potável a água brasileira.

Outra diferença entre a legislação brasileira e a europeia é que no Brasil as combinações de químicos não é proibida. Isso faz com que se ataque individualmente as substâncias danosas ao organismo, mas não as misturas. Algo que deveria ser feito, visto que esses químicos nunca aparecem sozinhos na água.