Apontado como um dos principais vilões quando o assunto é desmatamento e mudanças climáticas, o agronegócio é hoje, o principal setor impactado pelos efeitos do aquecimento global sobre a natureza.

Dado o ciclo de vida dos produtos e subprodutos da agricultura, as mudanças no regime de chuvas e os eventos climáticos extremos são fontes de prejuízos milionários e têm motivado uma série de ações que visam mitigar essas perdas.

Realidade da produção atual

De acordo com um levantamento realizado pela Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil), as más condições climáticas na safra de 2018/2019 reduziram a produção brasileira da oleaginosa em cerca de 16 milhões de toneladas. O volume representou 13,8% da expectativa inicial, de 117,2 milhões de toneladas, e é quase o dobro das 9 milhões de toneladas estimadas para o mesmo ciclo no Paraguai, segundo dados da Câmara Paraguaia de Exportadores e Comerciantes de Cereais e Oleaginosas.

Ainda assim, a agropecuária é apontada como principal responsável pelo desmatamento e seus efeitos sobre o clima e a biodiversidade. Os dados da Embrapa Territorial, contudo, apontam que 66,3% do território brasileiro é composto por vegetação nativa, do qual, 218 milhões de hectares encontravam-se dentro de propriedades rurais — cerca de um quarto de todo o território nacional. Ainda de acordo com a instituição, o valor estimado do patrimônio imobilizado nessas fazendas pode chegar a R$ 3,1 trilhões.

De acordo com Evaristo de Miranda, chefe-geral da Embrapa Territorial, “as áreas preservadas pelos agricultores compõem um mosaico ambiental relevante e de grande dimensão com as chamadas áreas protegidas”. 

Maior produção não é sinônimo de desmatamento

Em junho deste ano, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) divulgou o estudo Projeções do Agronegócio, Brasil 2018/19 a 2028/29, no qual se avalia que a produção de grãos do Brasil deve crescer 27% nos próximos dez anos, puxada principalmente, pelo aumento da produtividade das culturas. Contudo, a perspectiva é de uma expansão de área de apenas 15,3% no mesmo período.

Esses números têm sido explorados pelo governo brasileiro para desconstruir a imagem negativa que o agronegócio nacional ganhou nos últimos anos. Em discurso, durante a comemoração do centenário da Sociedade Rural Brasileira, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, classificou o setor como o “mais sustentável do mundo”, baseando-se justamente nos dados de aumento de produtividade sem expansão significativa de área. 

Medidas sustentáveis

Além disso, o governo brasileiro trabalha para ampliar medidas importantes, como a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) e a concessão de linhas de financiamento voltadas para a adoção de sistemas de baixa emissão de carbono, como o Projeto ABC. 

Nos últimos cinco anos, mais de 93 mil hectares foram recuperados no Cerrado, de acordo com dados do Mapa, com 7,8 mil produtores rurais capacitados a usar  tecnologias de baixa emissão de carbono, entre elas a ILPF e o plantio direto, principais trunfos do setor. 

No caso da integração, o uso consorciado do solo para a produção agrícola, de pastagem e de floresta plantada já alcança cerca de 14 milhões de hectares em todo o país com um crescimento anual de 10%, de acordo com estimativa da Associação Rede – ILPF.

Segundo pesquisa da Embrapa Agrossilvipastoril (Sinop, MT) em parceria com a Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat) e a Associação dos Criadores do Norte de Mato Grosso (Acrinorte), a média de produtividade pecuária entre aqueles produtores que realizam a ILPF chega a ser sete vezes maior do que média nacional, tendo alcançado 40,6 arrobas por hectare ao ano, entre julho de 2016 e julho de 2017. A média do Brasil é de 6@/ha/ano, e a de Mato Grosso fica em 4@/ha/ano.

Já o plantio direto, técnica desenvolvida na década de 70 e adotada em larga escala a partir dos anos 90, consiste em não revolver o solo, mantendo a palhada da cultura anterior como forma de reduzir sua erosão. Com isso, é possível garantir ganhos de produtividade que chegam a 50% em algumas culturas, segundo dados da Embrapa Soja. 

“Tecnologias como ILPF, plantio direto, recuperação de áreas degradadas podem contribuir para maior sustentabilidade da agropecuária. O Brasil não precisa cortar mais nenhuma árvore para aumentar sua produção, apenas incorporar áreas degradadas de forma sustentável”, avaliou Celso Moretti, presidente da Embrapa, durante a apresentação dos resultados do Projeto ABC no Cerrado.