COMO FALAR SOBRE DINHEIRO COM AS CRIANÇAS?

Especialista do programa de educação financeira, Gênio das Finanças, dá dicas sobre como lidar com o tema e não incentivar o consumismo 
Foto de Karolina Grabowska no Pexels

Apesar de nascer imersa em um mundo permeado pelo dinheiro, muitas vezes a criança não é ensinada a lidar com ele. Em algumas sociedades, há um receio em falar sobre dinheiro.

Assim, muitos pais tratam esse assunto como um tabu eque falar sobre dinheiro com seus filhos pode ser errado, pois estariam incentivando a se tornarem consumistas, avarentos ou até mesmo interesseiros

Na visão do psicólogo e produtor de conteúdo do programa de educação financeira, Gênio das Finanças, Leonardo Ricieri Mantoani, esse medo é prejudicial, pois impede que crianças e adolescentes aprendam a lidar com as próprias finanças e, assim, realizem seus sonhos.

“Afinal, é para isso que serve o dinheiro: realizar sonhos e suprir as necessidades materiais”.

A primeira dica de Mantoani é para que antes mesmo de falar sobre dinheiro com os filhos é preciso falar sobre sonhos.

“A sugestão é a família entender com o que seu filho sonha e deseja? Quais são os interesses e hobbies dele? Quais suas principais motivações?”.

O psicólogo destaca que despertar na criança o autoconhecimento é o primeiro passo para essa conversa tão desafiadora, mas extremamente rica e proveitosa.

“Quando seu filho aprende sobre si mesmo, consegue compreender melhor como o dinheiro pode auxiliá-lo a traçar metas e estratégias para realizar os próprios sonhos.”

O outro passo é adequar a linguagem à faixa etária. “Não é preciso conhecer profundamente conceitos matemáticos ou financeiros, como juros, taxas e impostos. O mais importante é fazer com que ele entenda que o dinheiro é uma troca: se quero comprar algo e realizar um sonho, preciso pagar por ele”, diz Mantoani.

Veja as dicas na entrevista com o especialista do programa de educação financeira Gênio das Finanças e saiba da importância e de como tratar sobre finanças com crianças e adolescentes:

1.    Como falar de dinheiro com crianças?

– Crianças pequenas precisam de estímulos concretos. Mostre moedas e cédulas para indicar que têm valores diferentes.

– Dê exemplos que façam parte do cotidiano: um doce custa algumas moedas, enquanto um brinquedo precisa de algumas cédulas. Para fortalecer a ideia de troca, deixe seu filho entregar o dinheiro ao vendedor e pegar a mercadoria quando forem às compras.

– Com crianças maiores que já conhecem as operações matemáticas, é possível falar sobre poupança, custos, planejamentos e sugerir como administrar o próprio dinheiro, incentivando pequenas compras de forma autônoma. A cantina da escola é uma ótima oportunidade para isso!

2.   E como falar de dinheiro com adolescentes?

– Os adolescentes têm mais conhecimento e liberdade sobre o próprio dinheiro, então é possível conversar com eles sobre assuntos como cartão de crédito, investimentos e orçamentos.

– É importante incentivá-los a lidar de maneira independente com as próprias finanças para que aprendam na prática a economizar, gastar, investir e doar – atitudes fundamentais para uma vida financeira saudável.

3.   Como não criar filhos consumistas?

–  Em um mundo onde existem propagandas e promoções em todos os lugares, sobretudo na internet, parece impossível não se tornar consumista. O tempo todo somos incentivados a comprar e a desejar aquilo que os outros possuem.Com crianças e adolescentes, não é diferente, pois são influenciados, principalmente, pelos amigos e youtubers. Brinquedos, videogames, celulares, jogos, bonecos colecionáveis, roupas, sapatos, materiais escolares.

– Primeiro de tudo: é importante ser um modelo para os filhos. Afinal, o exemplo é a maior lição de vida que se pode dar, pois eles aprendem todos os dias observando os comportamentos dos pais e familiares.

Se os pais mostrarem que fazem compras apenas quando há um planejamento, os filhos aprenderão a consumir de maneira criteriosa e responsável. Por isso, é preciso repensar os próprios hábitos financeiros.

– Outra estratégia fundamental é ensiná-los a identificar os pensamentos e emoções que os levam ao consumismo. No Programa de Educação Financeira Comportamental Gênio das Finanças, elaboramos atividades para que os estudantes reconheçam como seus comportamentos e decisões são influenciados por vieses inconscientes, que chamamos de Armadilhas Psicológicas Financeiras, como o imediatismo, a influência dos outros, a ostentação, o otimismo excessivo, entre outros.

Com isso, buscamos fazer com que as crianças e adolescentes aprendam a gerenciar os próprios pensamentos e emoções que podem gerar o desejo de consumir. Por exemplo: todos os colegas de seu filho compram o item da moda que virou “febre” na internet. Com isso, ele pensa que será excluído do grupo se não tiver tal item e se sente triste, desejando comprar de maneira imediatista. Se ele aprender que esse pensamento não é real e que a felicidade está além de um objeto material, terá maior consciência de sua decisão e poderá escolher não comprar esse item. No entanto, se não tiver essa compreensão, cederá facilmente aos impulsos consumistas apenas para se adequar ao padrão social.

–  Outra técnica importante que ensinamos em nosso Programa é o planejamento: depois que o filho elegeu os sonhos, ele precisará se organizar financeiramente para realizá-los e escolher entre gastar com compras de itens não essenciais ou poupar para alcançar aquilo que almeja. Ao se planejar, ele consegue ter uma visão multifocal sobre o que realmente é importante para ele, toma decisões responsáveis ao compreender que o consumismo o impede de economizar o dinheiro necessário para realizar os próprios sonhos.

4.   É interessante dar mesada? Como definir esse valor?

–  De todos os assuntos sobre Educação Financeira, a mesada é a que mais gera dúvidas em pais. Afinal, devemos ou não dar mesada para nossos filhos?

A mesada é, sim, uma excelente ferramenta para ensinar Educação Financeira às crianças, mas não é a única.

– Ela é indicada por especialistas para que as crianças tenham a oportunidade de administrar o próprio dinheiro, aprendendo a se planejar, orçar, poupar, comprar e até mesmo investir. Geralmente, as mesadas são implementadas a partir do momento em que os filhos passam a pedir dinheiro com frequência.

Mas não deve ser uma obrigação: é preciso fazer um acordo com o filho, e descobrir se ele gostaria de receber a mesada.

Caso deseje, ajude a fazer um planejamento de quais gastos serão pagos com a mesada, por exemplo, pagar o lanche da cantina, os passeios com os amigos e alguns hobbies, como coleções ou jogos de videogames. A partir disso, pode ser feita uma estimativa de valor, que não deve variar após o acordo.

Então, caso ele faça uma má escolha e gaste todo o dinheiro comprando itens fora do combinado, como brinquedos, os pais não devem emprestar, adiantar nem pagar a saída com os amigos. A mesada ensina a lidar com um recurso limitado: o dinheiro. Isso ensina a planejar os gastos de acordo com o valor previamente estipulado e os estimula aassumir a responsabilidade pelas próprias escolhas.

– Caso não deseje, ele pode aprender a lidar com o dinheiro e desenvolver hábitos financeiros saudáveis de outras formas.

– Mesada não é salário! A criança não terá que exercer um trabalho ou tarefa para recebê-la, pois não é uma troca: o filho faz algo, e os pais o pagam por isso. A mesada é uma maneira de ensiná-lo a administrar o próprio dinheiro.

– Mesada também não é prêmio nem castigo. O valor da mesada não deve variar, mesmo se for para recompensar comportamentos saudáveis, como tirar notas altas ou arrumar o quarto, ou punir comportamentos inadequado, como brigar ou desobedecer aos pais.

5.   Como definir o valor da mesada por faixa etária (primeira infância, infância e adolescência

– Não, há um valor adequado para cada faixa etária. O valor dependerá do acordo feito ao estipular os gastos que deverão ser pagos com a mesada.

– Até 10 anos. Para crianças até 10 anos, o indicado é a semanada, ou seja, na segunda-feira, os pais entregam o valor estipulado que o filho gastará na semana. Nessa faixa etária está aprendendo a se organizar em longo prazo, então é inexperiente para controlar os gastos por um período extenso.

– Acima de 10 anos. A partir dessa idade, a mesada é mais indicada, pois já poderão aprendem a administrar o dinheiro ao longo do mês, dinâmica semelhante ao futuro salário. A transição de semanada para mesada pode trazer certa dificuldade, geralmente nos primeiros três meses. Se a dificuldade persistir após esse tempo, é indicado retornar a prática da semanada até que a criança se torne mais experiente na organização financeira.

– Jovens. A mesada continua sendo indicada, mas com um diferencial no momento da entrega do valor: por meio de abertura em conta corrente e/ou conta poupança em bancos. Além disso, o uso de tecnologia pode favorecer o controle dos gastos, como sites e aplicativos especializados em Educação Financeira. Pensando nisso, desenvolvemos o aplicativo Gênio das Finanças, no qual eles têm acessos a diversas ferramentas de planejamento financeiro, cursos de formação complementar e inúmeras dicas para conquistar as metas pessoais e familiares.

– Vivemos em um país com uma enorme desigualdade social que se intensificou com a pandemia. Assim, há inúmeras diferenças no padrão de vida dependendo da renda mensal da família. Mas, independentemente do poder aquisitivo, as crianças e adolescentes têm acesso a uma parte do dinheiro dos pais, mesmo que em um valor pequeno. Nesse sentido, é possível dar mesada para os filhos pertencendo a uma família com baixo poder aquisitivo. O valor pode ser definido para apenas uma categoria, como passeios com os amigos. Portanto, a criança ou adolescente receberá uma quantia, mesmo que pequena, e a metade será destinada a um único fim, enquanto a outra parte será para a realização dos sonhos.

– Lembre-se: o objetivo da mesada e semanada é ensinar a administrar o próprio dinheiro de maneira autônoma e independente, aprendendo a se planejar, orçar, poupar, controlar gastos e investir. Por isso, o mais importante não é o valor a ser recebido, mas, ensinar o filho a lidar com o próprio dinheiro e desenvolver habilidades fundamentais para a construção de uma vida financeira mais próspera e saudável.

6.   E como devem ser os gastos?

–  Não há uma fórmula pronta, mas em nosso Programa de Educação Financeira, indicamos que metade do valor (semanal ou mensal) seja gasto de maneira consciente e planejada, sem excessos, conforme o acordo estipulado. Para organizar esses gastos, é interessante que a criança ou o adolescente separe os valores logo que receber o dinheiro. Por exemplo, em um pote, colocará o dinheiro destinado para a cantina, em outro o que será gasto com lazer, e em um terceiro para coleções.

– Os pais podem auxiliar os filhos a registrarem os gastos realizados, levando-os a refletir e identificar se são necessários ou supérfluos, mas sem culpá-los ou julgá-los pelas escolhas feitas.

– Sugerimos que a outra metade da mesada ou semanada seja poupada para a realização de sonhos. Ela pode ser dividida em três cofrinhos: 50% para sonhos em curto prazo (para serem realizados em até 3 meses), 30% para médio prazo (até 6 meses) e 20% para longo prazo (acima de 6 meses). Ressalto a importância de aprender as técnicas para evitar as Armadilhas Psicológicas Financeiras, pois gerenciar os pensamentos e emoções é fundamental para se planejar e praticar atitudes saudáveis que auxiliam a realizar os sonhos.

– Uma dica importantíssima: não pule etapas. O filho está se dedicando a poupar cada centavo em busca de um sonho. Mesmo que o valor esteja distante, não se antecipe e compre o produto que ele deseja, pois o ato de poupar é uma rica lição de esforço, determinação e resiliência. Se ele recebe o item de presente, ele poderá entender que é possível ganhar tudo facilmente sem dedicação e compromisso.

Sobre o programa Gênio das Finanças:

O Gênio das Finanças é um programa de educação financeira comportamental, baseado em conceitos da Psicologia e da Economia. Aplicado em 1 hora-aula por semana, o programa atende mais de 15 mil alunos pelo Brasil e ensina os alunos de forma prática como superar armadilhas psicológicas relacionadas às finanças, formando cidadãos que sabem planejar, estabelecer metas e assumir atitudes conscientes. Alinhado com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e a Estratégia Nacional de Educação Financeira (ENEF), que entendem a Educação Financeira como uma área de conhecimento transdisciplinar, ele envolve todos os aspectos relacionados à formação do comportamento do indivíduo com relação às finanças.

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