Formato tradicional de pagamento por serviço tende a ser substituído

O modelo tradicional de remuneração da saúde, baseado no volume de procedimentos realizados, começa a dar sinais claros de esgotamento no Brasil. Pressionado pelo aumento contínuo dos custos assistenciais e pela baixa eficiência sistêmica, o setor passa por uma transição silenciosa rumo ao Value-Based Health Care (VBHC) – remuneração baseada em valor- abordagem que propõe remunerar hospitais e médicos com base nos resultados clínicos e na qualidade do cuidado entregue ao paciente.
Historicamente, o sistema de saúde foi estruturado para remunerar a quantidade de atendimentos realizados, como consultas, exames e cirurgias. Esse formato, conhecido como fee-for-service, ou taxa por serviço, acabou incentivando a realização de mais procedimentos, nem sempre necessários, elevando os custos e fragmentando o cuidado ao paciente. Na prática, o modelo premiava produção, e não necessariamente desfechos positivos, o que contribuiu para distorções ao longo do tempo.
Estudos da Organização Mundial da Saúde indicam que entre 20% e 40% dos gastos em saúde no mundo estão associados a ineficiências e desperdícios, reforçando a necessidade de modelos que priorizem qualidade e efetividade do cuidado. O VBHC surge justamente como uma resposta a esse cenário.
A proposta é simples na teoria: pagar pelo que realmente importa: a melhora da saúde do paciente. Nesse modelo, hospitais, médicos e operadoras passam a ser remunerados com base em indicadores como recuperação, qualidade de vida, redução de complicações e eficiência do tratamento. O foco deixa de ser o volume de serviços prestados e passa a ser o valor gerado ao paciente.
O portal Saúde Business apontou, em estudo elaborado pela L.E.K. Consulting em parceria com o Instituto Brasileiro de Valor em Saúde (Ibravs), que embora 60% dos executivos entrevistados reconheçam a relevância do conceito para a sustentabilidade do setor, apenas cerca de 10% dos hospitais têm algum contrato efetivamente baseado em valor. Mas o mesmo levantamento indica que isso deve mudar, já que 78% dos provedores pretendem ampliar o uso de modelos baseados em performance até 2030.
A implantação do VBHC, porém, exige uma profunda reorganização do sistema de saúde, começando pela definição de indicadores confiáveis para medir resultados clínicos. Além disso, é necessário integrar dados entre diferentes prestadores, algo ainda limitado no país. Há também barreiras culturais, já que o modelo tradicional está enraizado na prática médica e na lógica de remuneração vigente há décadas.
Outro desafio relevante está na construção de contratos mais sofisticados entre operadoras e prestadores de serviço. Modelos baseados em valor exigem compartilhamento de riscos, metas bem definidas e transparência na mensuração de resultados. Sem isso, há risco de distorções ou dificuldade na adesão por parte dos diferentes agentes do sistema, o que pode comprometer o avanço da proposta.
O conceito de Value-Based Health Care foi desenvolvido nos Estados Unidos, a partir de estudos conduzidos por Michael Porter, da Harvard Business School, em parceria com Elizabeth Teisberg. A proposta ganhou notoriedade com a publicação do livro Redefining Health Care, que critica o modelo baseado em volume e defende a reorganização do sistema em torno do valor entregue ao paciente.
No Brasil, embora ainda em estágio inicial, o avanço do modelo reflete uma tendência irreversível de transformação na gestão da saúde. À medida que os custos continuam a subir e a demanda por qualidade aumenta, a remuneração baseada em valor se posiciona como um caminho para equilibrar eficiência econômica e melhores desfechos clínicos, colocando o paciente no centro das decisões.
