Diante das novas travas de segurança da rede social, a especialista Núria Santos ensina como o diálogo e o acolhimento em casa superam qualquer controle parental tecnológico

A aceleração do uso de telas por crianças e adolescentes trouxe para a rotina familiar novos desafios relacionados à saúde mental e ao desenvolvimento socioemocional. Com o avanço das redes sociais e as atualizações constantes das plataformas — a exemplo do Instagram, que implementou as Contas de Adolescente (Teen Accounts) com proteções automáticas de conteúdo e limites de tempo de uso —, a preocupação dos pais migrou do tempo de tela para o impacto das interações no bem-estar dos filhos. Diante desse cenário, a inteligência emocional surge como uma ferramenta indispensável para que as famílias consigam transformar a tecnologia em uma aliada, e não em uma fonte constante de ansiedade, comparação ou isolamento.
O primeiro passo para exercitar essa competência em casa é trocar o controle punitivo pelo monitoramento atento e dialógico. As novas ferramentas das redes facilitam o bloqueio de conteúdos inadequados e pausaram notificações noturnas, mas a tecnologia por si só não substitui a orientação parental na construção de limites emocionais.
A especialista em inteligência emocional Núria Santos destaca a importância de validar as experiências do jovem no ambiente online: “Os pais não devem enxergar as redes apenas como vilãs, mas sim como extensões da vida social dos filhos. Quando uma criança se frustra por não ter o mesmo estilo de vida que vê em um perfil famoso ou por não receber curtidas suficientes, a resposta não pode ser a invalidação do sentimento, mas sim o acolhimento. As novas funções do Instagram ajudam no filtro técnico, mas cabe aos pais ensinar o filtro emocional”, pontua Núria.
Para sair da teoria e levar a alfabetização emocional para a rotina doméstica, os pais precisam adotar ferramentas acionáveis de comunicação e estabelecer limites claros de convivência. Segundo Núria Santos, guiar a nova geração exige transformar o diálogo passivo em estratégias de reflexão contínua que ajudem o jovem a identificar o impacto das telas em seu humor.
“É fundamental que os pais ajudem a criança a nomear o que sente. Se o jovem fica irritado ao fechar o aplicativo, a família precisa investigar se aquilo é comparação, cansaço ou ansiedade. Quando a criança entende que o algoritmo é desenhado para reter sua atenção e que os perfis mostram apenas ‘cortes selecionados’ da realidade, ela desenvolve um olhar crítico e protege sua autoimagem”, explica a especialista.
Quadro Prático: Guia de Aplicação Imediata para os Pais
1. O Filtro Emocional em 3 Perguntas (Para fazer quando o filho parecer frustrado na tela):
- “O que você viu agora que mudou o seu humor?”
- “Você acha que essa foto mostra a vida real da pessoa ou só o melhor momento dela?”
- “O que podemos fazer juntos agora longe do celular para você se sentir melhor?”
2. As 3 Regras de Ouro da Casa (Válidas para pais e filhos):
- Cesta de Celulares na Mesa: Durante as refeições, todos os aparelhos ficam no modo silencioso e guardados em uma cesta longe da mesa.
- Estação de Carga Coletiva: Nenhum celular dorme no quarto. Todos os aparelhos devem ser carregados na sala a partir das 21h para evitar a navegação noturna.
- Regra dos 45/10: A cada 45 minutos contínuos de uso do Instagram, a criança deve fazer uma pausa obrigatória de 10 minutos de caminhada, água ou interação verbal.
Outra diretriz crucial para o equilíbrio emocional familiar é a consistência no cumprimento dessas zonas livres de telas, fortalecendo a presença e a escuta ativa dentro de casa. Momentos como refeições, conversas antes de dormir e passeios ao ar livre devem ser preservados para a convivência real, garantindo que o cérebro em desenvolvimento tenha pausas de estímulos digitais.
Núria reforça que o exemplo dentro do lar dita o comportamento dos filhos: “A inteligência emocional é assimilada pelo exemplo diário. Se os pais utilizam o celular como fuga emocional ou como anestésico para o estresse na frente dos filhos, a criança entenderá que a tela é a única forma de autorregulação. Estabelecer limites saudáveis de tempo de uso deve ser um pacto da família inteira, e não uma imposição unidirecional”, orienta a profissional.
Por fim, guiar a nova geração diante dos algoritmos exige constância e flexibilidade das dinâmicas familiares, entendendo que a maturidade emocional é um processo gradativo. Ao unir os recursos de segurança oferecidos pelas próprias plataformas digitais com um ambiente doméstico pautado pelo diálogo, pelas regras práticas e pela escuta sem julgamentos, os pais preparam os filhos não apenas para usar o Instagram de forma segura, mas para lidar com frustrações, expectativas e interações sociais em qualquer contexto da vida.
A tecnologia muda rapidamente a cada atualização, mas a base emocional sólida construída na infância permanece como o principal escudo protetor do indivíduo ao longo de toda a sua vida.
