A obesidade infantil cresceu de 1,6% para 17,4% entre brasileiros de 5 a 19 anos em pouco mais de quatro décadas e pode contribuir com o desgaste articular, doenças inflamatórias e complicações metabólicas

O excesso de peso na infância e na adolescência pode trazer consequências que vão muito além da aparência física. Além de aumentar o risco de diabetes tipo 2, hipertensão arterial e problemas respiratórios, a obesidade pode sobrecarregar as articulações, favorecer processos inflamatórios e contribuir para o desenvolvimento de doenças reumáticas. O cenário preocupa diante do avanço da condição entre os jovens brasileiros: a prevalência de obesidade na população de 5 a 19 anos passou de 1,6%, em 1980, para 17,4%, em 2024, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS).
De acordo com a reumatologista Cláudia Goldenstein Schainberg, coordenadora do Núcleo de Reumatologia do Hospital Sírio-Libanês, o impacto do excesso de peso sobre a saúde musculoesquelética merece atenção desde os primeiros anos de vida. As articulações, responsáveis por permitir os movimentos e sustentar o corpo, podem sofrer tanto com a sobrecarga mecânica quanto com as alterações metabólicas e inflamatórias associadas à obesidade.
“O excesso de peso aumenta a carga sobre as articulações como os joelhos e os quadris. Se mantida até a idade adulta, com o passar do tempo, essa sobrecarga pode acelerar o desgaste das estruturas articulares e favorecer o desenvolvimento de osteoartrite. Por isso, é importante olhar para a obesidade infantil como uma questão de saúde integral, que também envolve a mobilidade e a qualidade de vida”, explica a especialista.
Inflamação pode afetar as articulações
Os efeitos da obesidade não se limitam à pressão física exercida sobre as articulações. O tecido adiposo também participa de processos metabólicos e inflamatórios do organismo. Em pessoas com obesidade, pode ocorrer um estado de inflamação sistêmica, capaz de contribuir para o agravamento de processos inflamatórios e para alterações na saúde articular.
“Precisamos considerar que a obesidade não é apenas uma questão de carga sobre as articulações. Ela também está associada a alterações metabólicas e à produção de substâncias que participam da resposta inflamatória. Esses fatores podem influenciar a saúde musculoesquelética ao longo do tempo e tornar o acompanhamento de determinadas doenças reumáticas mais complexo”, destaca Cláudia Goldenstein Schainberg.
A artrite reumatoide e a artrite Psoriasica, por exemplo, são doenças inflamatórias crônicas que podem comprometer diferentes articulações. Embora não sejam causadas pela obesidade, o excesso de peso pode estar associado a maior atividade inflamatória e a dificuldades no controle da doença em alguns pacientes.
Já a osteoartrite, conhecida popularmente como artrose, envolve alterações nas estruturas das articulações, incluindo a cartilagem. A sobrecarga mecânica e fatores metabólicos relacionados à obesidade podem contribuir para seu desenvolvimento e progressão.
Alterações metabólicas também podem favorecer a gota
A obesidade está associada a alterações metabólicas, entre elas a resistência à insulina, condição em que o organismo passa a responder de maneira menos eficiente à ação desse hormônio. Essas alterações podem estar relacionadas a mudanças no metabolismo do ácido úrico, aumentando o risco de hiperuricemia e, em determinadas circunstâncias, de gota.
A gota é uma doença inflamatória causada pelo depósito de cristais de urato monossódico nas articulações e em outros tecidos. As crises podem provocar dor intensa, inchaço, vermelhidão e dificuldade de movimentação.
Embora seja mais comum em adultos, a relação entre obesidade, saúde metabólica e inflamação reforça a importância de prevenir o excesso de peso desde a infância.
Obesidade pode dificultar o tratamento de doenças reumáticas
Além de contribuir para o surgimento ou agravamento de determinadas condições, a obesidade também pode tornar o tratamento de doenças reumáticas mais desafiador. O excesso de peso pode estar associado a uma resposta terapêutica menos favorável em alguns pacientes, especialmente em doenças inflamatórias crônicas, como a a artrite Psoriasica e a artrite reumatoide.
Medicamentos anti-inflamatórios e corticosteróides, utilizados em situações específicas para controlar a inflamação e os sintomas, exigem acompanhamento médico individualizado. A obesidade e as condições associadas a ela podem influenciar a resposta ao tratamento, o controle da doença e o risco de efeitos adversos. No caso dos corticosteróides, por exemplo, o uso prolongado pode agravar alterações metabólicas, como o aumento da glicemia, e contribuir para o ganho de peso.
“Quando existe uma doença reumática associada à obesidade, o cuidado precisa ser redobrado. O objetivo não é apenas controlar a dor ou a inflamação, mas também incentivar a perda de peso, avaliar os fatores metabólicos e as condições que podem interferir na evolução da doença e na resposta ao tratamento”, ressalta a reumatologista.
Impactos também chegam à escola e à qualidade de vida
As consequências da obesidade infantil podem alcançar diferentes áreas do desenvolvimento. Crianças e adolescentes com excesso de peso podem apresentar distúrbios do sono, incluindo insônia em alguns casos, além de dificuldades de atenção e baixo desempenho escolar. Esses problemas podem estar relacionados a fatores como sono de má qualidade, condições emocionais, alterações metabólicas e doenças associadas à obesidade.
A limitação dos movimentos, o desconforto físico e a dificuldade para participar de atividades esportivas e brincadeiras também podem comprometer o bem-estar e a socialização. Por isso, o cuidado deve considerar não apenas o peso corporal, mas também a saúde física, emocional e social da criança.
Prevenção começa na infância
A prevenção e o tratamento da obesidade infantil exigem uma abordagem contínua e multidisciplinar, com participação da família e acompanhamento de profissionais de saúde. Alimentação equilibrada, atividade física adequada à idade, sono de qualidade e redução do tempo sedentário são medidas importantes para promover a saúde e diminuir os riscos associados ao excesso de peso.
A avaliação médica é fundamental para identificar precocemente possíveis complicações, incluindo alterações metabólicas e sintomas musculoesqueléticos. Dores persistentes, inchaço nas articulações ou dificuldade de movimentação devem ser investigados por um profissional de saúde, sem que sejam atribuídos automaticamente ao excesso de peso.
“Prevenir a obesidade na infância significa proteger a saúde presente e futura. O acompanhamento precoce permite identificar fatores de risco, orientar mudanças sustentáveis nos hábitos de vida e avaliar eventuais complicações. É uma oportunidade de promover mais saúde, mobilidade e qualidade de vida ao longo do desenvolvimento”, conclui Cláudia Goldenstein Schainberg.
Sobre a Dra. Cláudia Goldenstein Schainberg
Com uma ampla experiência na área da saúde, Dra. Cláudia é graduada em Medicina pela Universidade Federal da Bahia e possui mestrado e doutorado pela Faculdade de Medicina da USP onde atua como médica assistente e Professora Colaboradora.
Fez também especialização em Reumatologia no Canadá e Estados Unidos.
A Dra. Cláudia declara a importância sobre assuntos sociais relacionados à saúde, bem-estar, qualidade de vida, autocuidado e humanismo.
Exerce atividades de ensino, assistência e pesquisa no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, onde chefia o Laboratório de Imunologia Celular da Disciplina de Reumatologia. No Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, atua nos Ambulatórios de doenças reumáticas da infância, triagem e espondiloartrites.
Faz parte também do corpo clínico dos hospitais Israelita Albert Einstein, Vila Nova Star e Alemão Oswaldo Cruz.
Atualmente é coordenadora do Núcleo de Reumatologia do Hospital Sírio Libanês.
