Farmacêutica Renata Monteiro, da Tekoá Escola, analisa os riscos, oportunidades e disputas de um setor que pode movimentar até US$ 10 bilhões e redefinir o futuro da saúde mental global

Renata Monteiro, Farmacêutica
Enquanto o mundo enfrenta uma escalada histórica de transtornos mentais — da depressão resistente ao estresse pós-traumático — uma nova fronteira terapêutica começa a se consolidar na interseção entre ciência, biotecnologia e mercado: a das terapias com psicodélicos e cannabis.
Com projeções que apontam para um mercado global de até US$ 10 bilhões nos próximos anos, essa nova indústria já atrai grandes farmacêuticas, fundos de investimento e empresas de biotecnologia, em uma corrida por inovação, validação clínica e domínio de mercado.
Nos Estados Unidos e na Europa, centros especializados, protocolos clínicos avançados e investimentos robustos aceleram o desenvolvimento dessas terapias. No Brasil, no entanto, o cenário ainda é marcado por um paradoxo: alta demanda, avanço científico — e travas estruturais que limitam o protagonismo nacional.
É nesse ponto de inflexão que surge uma nova geração de especialistas que atuam na conexão entre ciência, prática clínica e formação profissional. Entre eles, destaca-se a farmacêutica Renata Monteiro, uma das vozes emergentes na estruturação desse novo campo no Brasil.
Renata Monteiro é farmacêutica, especialista em cannabis medicinal e terapias emergentes em saúde mental, com atuação na interface entre ciência, prática clínica e formação profissional.
É fundadora da Tekoá Escola — Escola Avançada de Capacitação Técnica e Aperfeiçoamento Profissional, iniciativa que forma profissionais de saúde para atuação qualificada com terapias canabinoides e psicodélicas, integrando conhecimento científico contemporâneo, prática clínica e respeito aos saberes tradicionais.
Com visão estratégica sobre o setor, Renata se posiciona como uma das profissionais que conectam o avanço científico à construção de um novo modelo de cuidado em saúde mental no Brasil.
Para Renata Monteiro, o momento atual não representa apenas mais um ciclo de inovação — mas uma transição estrutural na forma como a saúde mental é tratada globalmente.
“O que diferencia esse momento é a convergência entre uma crise global sem precedentes em saúde mental e evidências científicas mais consistentes para novas abordagens terapêuticas.”
Segundo ela, transtornos como depressão resistente, ansiedade severa, TEPT e dependência química vêm crescendo em complexidade, enquanto os tratamentos tradicionais apresentam limitações importantes.
Diferentemente de ciclos anteriores — baseados em evoluções incrementais — o cenário atual aponta para intervenções mais profundas, com respostas mais rápidas e potencialmente duradouras.
Além disso, há um avanço relevante na validação científica e institucional:
- estudos clínicos robustos
- reconhecimento por órgãos reguladores internacionais
- aceleração de investimentos
“Não estamos diante de uma tendência, mas de uma mudança de paradigma.”
Apesar do avanço global, o Brasil ainda opera abaixo do seu potencial.
“O atraso não é falta de capacidade — é falta de coordenação entre ciência, regulação e estratégia.”
Renata destaca que o país possui ativos únicos:
- base científica relevante
- capital humano qualificado
- uma das maiores biodiversidades do planeta
- saberes ancestrais consolidados
No entanto, esses elementos ainda não estão integrados em uma estratégia nacional.
“Sem articulação entre academia, setor privado e políticas públicas, o potencial permanece disperso.”
Para ela, o debate vai além da regulação: Trata-se de uma decisão estratégica sobre o papel do Brasil na nova economia da saúde mental.
O mercado brasileiro de cannabis medicinal já se aproxima de R$ 1 bilhão, com mais de 800 mil pacientes atendidos — um crescimento expressivo em poucos anos.
Mas, segundo Renata, isso ainda não posiciona o país como protagonista.
“Hoje, o Brasil é muito mais consumidor do que gerador de inovação.”
Os principais entraves incluem:
- dependência de importações
- limitações regulatórias
- dificuldade de condução de estudos clínicos em escala
“O potencial é enorme. Mas transformar escala em liderança exige decisão estratégica.”
Diante do crescimento acelerado do setor, especialistas alertam para riscos de banalização e uso sem respaldo clínico.
Para Renata, a resposta não está em frear o avanço — mas em qualificá-lo.
“Mais do que regulação, o que sustenta esse mercado é conhecimento.”
Ela aponta a formação profissional como eixo central para garantir segurança e consistência no setor.
Foi a partir dessa necessidade que nasceu a Tekoá Escola, com proposta de formar profissionais aptos a atuar com essas terapias de forma ética, técnica e responsável.
“O futuro desse setor depende menos da velocidade do mercado e mais da qualidade do conhecimento que o sustenta.”
O avanço das terapias com cannabis e psicodélicos não é apenas uma questão de saúde.
É também:
- uma oportunidade econômica
- uma agenda de inovação
- uma disputa global por protagonismo
Para Renata Monteiro, o Brasil ainda pode ocupar posição de destaque — mas precisa agir.
“Não se trata apenas de acompanhar o mundo. O Brasil tem condições de influenciar esse campo — se houver decisão, coordenação e visão de longo prazo.”
