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Acordar cansada mesmo depois de dormir pode ter explicação e nem sempre está no sono

Sensação de corpo pesado, rigidez ao acordar e falta de energia podem estar mais ligadas ao corpo do que à qualidade do descanso

Créditos: iStock

Dormir por sete ou oito horas e, ainda assim, acordar cansada é uma queixa cada vez mais comum — especialmente entre mulheres que conciliam trabalho, rotina doméstica e uma vida cada vez mais conectada. Em muitos casos, a primeira suspeita recai sobre o sono: noites mal dormidas, ansiedade ou excesso de estímulos antes de deitar. Mas nem sempre o problema começa aí.

Especialistas apontam que, em parte dos casos, a sensação de cansaço ao acordar pode estar relacionada ao próprio corpo — especialmente à forma como ele se comporta ao longo do dia.

Dados da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) indicam que cerca de 72% dos brasileiros sofrem com distúrbios do sono, mas isso não significa que todas as queixas tenham origem exclusivamente neurológica ou emocional. Há também fatores físicos importantes envolvidos.

Para o neurocirurgião Ricardo Graciano, especialista em coluna e em tratamentos minimamente invasivos, a sobrecarga corporal acumulada ao longo do dia pode influenciar diretamente a forma como o organismo se recupera durante o sono.

“Muitas pessoas acreditam que o cansaço ao acordar está ligado apenas à qualidade do sono, mas o corpo também precisa estar em equilíbrio para se recuperar. Quando há tensão muscular, postura inadequada ou sobrecarga da coluna, esse descanso não acontece de forma completa”, explica.

O corpo também “cansa” – e não se recupera sozinho

Ao longo do dia, hábitos como ficar muito tempo sentado, usar o celular com a cabeça inclinada ou manter a mesma posição por horas geram acúmulo de tensão na musculatura, especialmente na região cervical e lombar.

Esse acúmulo não desaparece automaticamente durante a noite.

“O corpo entra em um estado de compensação. A musculatura fica mais rígida, a mobilidade diminui e, mesmo dormindo, o organismo não consegue relaxar completamente”, afirma Graciano.

O resultado pode aparecer logo pela manhã:

– sensação de corpo pesado
– rigidez ao levantar
– dificuldade de se movimentar
– dores leves ou difusas
– sensação de que o descanso “não foi suficiente”

Sono também pode não estar sendo reparador

Além da sobrecarga física, fatores relacionados à qualidade do sono também ajudam a explicar o cansaço ao acordar.

A farmacêutica Fabíola Faleiros, especialista em farmácia de manipulação à frente da La Pharma e da Unna Pharma, explica que muitas pessoas até dormem o tempo adequado, mas não atingem um sono profundo e restaurador.

“Hoje vemos muitos pacientes que dormem, mas não descansam. Isso pode estar ligado ao estresse, excesso de estímulos antes de dormir, desregulação do ritmo biológico e até níveis elevados de cortisol”, afirma.

Segundo ela, hábitos aparentemente simples — como o uso de celular antes de dormir ou horários irregulares — podem interferir diretamente na qualidade do sono.

“Não é só a quantidade de horas que importa, mas a qualidade desse sono. Se o organismo não entra em fases mais profundas, o corpo não consegue se recuperar completamente”, explica.

Rotina, postura e estilo de vida formam o problema

Além da higiene do sono, o estilo de vida tem impacto direto na forma como o corpo responde ao descanso.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 1 em cada 4 adultos no mundo não pratica atividade física suficiente, o que compromete a saúde muscular e postural.

“A falta de fortalecimento faz com que o corpo dependa mais de compensações. Isso aumenta a sobrecarga da coluna e dificulta a recuperação durante o sono”, explica Graciano.

Quando investigar

Embora o cansaço ocasional seja comum, alguns sinais indicam que é importante buscar avaliação:

– sensação de cansaço persistente ao acordar
– dor frequente nas costas ou no pescoço
– formigamento ou dormência
– limitação de movimento
– dificuldade para manter a rotina

“Se o corpo não recupera, ele começa a dar sinais. E quanto antes isso for investigado, mais simples tende a ser o tratamento”, alerta o neurocirurgião.

Pequenos ajustes que fazem diferença

A boa notícia é que mudanças simples podem melhorar significativamente a qualidade do descanso:

– fazer pausas ao longo do dia
– ajustar travesseiro e postura ao dormir
– reduzir uso de telas à noite
– manter rotina de atividade física
– estabelecer horários regulares para dormir

“Não é apenas dormir mais. É preparar o corpo e o organismo para descansar melhor”, resume Fabiola.

Um cansaço que vai além do sono

Se antes o cansaço era atribuído apenas à falta de descanso, hoje ele reflete uma combinação de fatores — físicos, emocionais e comportamentais.

“O sono é fundamental, mas ele não resolve tudo sozinho. O corpo precisa estar em condições de relaxar. Caso contrário, a sensação de cansaço continua”, conclui Ricardo Graciano.