Especialista do Crea-SP alerta para o uso de adaptadores, sobrecarga e falta de revisão na fiação residencial

A evolução dos hábitos de consumo e a introdução de novos eletroeletrônicos alteraram a demanda energética nas residências. Ambientes projetados no passado recebem hoje uma carga simultânea de equipamentos de alta potência, que variam de estações de trabalho e sistemas de climatização a aparelhos de cozinha como cooktops, fornos elétricos e air fryers. Essa diversidade de uso, aliada a hábitos como o encadeamento de extensores e a ligação de múltiplos aparelhos em um mesmo ponto de energia, sobrecarrega circuitos que não foram dimensionados para esse perfil de consumo.
No primeiro semestre de 2026, o Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo registrou 3.346 incêndios em edificações. Deste total, 2.090 ocorrências foram em imóveis não sujeitos ao Regulamento de Segurança Contra Incêndios (RSCI), normativa que regulamenta regras de prevenção e combate a incêndios para construções e áreas de risco, categoria na qual se enquadram as residências unifamiliares. Entre os motivos recorrentes desses incidentes estão falhas nas instalações elétricas, sobrecarga na rede e uso incorreto de eletrodomésticos.
A referência para o dimensionamento no setor é a Norma Brasileira 5410, da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) que regulamenta as instalações elétricas de baixa tensão. O engenheiro eletricista Leandro Prestes, conselheiro na Câmara Especializada de Engenharia Elétrica do Crea-SP, aponta os requisitos básicos para a segurança do imóvel. “A instalação precisa ser projetada, executada e mantida de acordo com a NBR 5410, o que inclui o dimensionamento correto dos condutores, a divisão dos circuitos e a escolha de dispositivos de proteção adequados. Instalações antigas ou que passaram por reformas exigem verificações periódicas para evitar improvisações e sobrecargas”, afirma.
Como os cabos elétricos ficam embutidos em paredes e lajes, a detecção visual de falhas é limitada. Sinais como cheiro de plástico queimado ou emissão de fumaça branca indicam superaquecimento. Além de fiações antigas, a sobrecarga decorre da utilização incorreta de adaptadores em tomadas. A norma diferencia as tomadas de 10 amperes (10A), voltadas a equipamentos de menor consumo, das tomadas de 20 amperes (20A), projetadas para aparelhos de maior potência, como ferros de passar, cafeteiras, air fryers e secadores de cabelo. “Ao usar adaptadores para conectar um plugue de 20A em uma tomada de 10A, o ponto de energia opera acima da capacidade para a qual foi projetado, gerando aquecimento, trazendo tensão para a instalação”, explica o conselheiro.
O funcionamento do quadro de energia também indica a situação do sistema elétrico, podendo gerar atenção. O especialista alerta que o desarme de um disjuntor pode ocorrer por curto-circuito imediato ou por sobrecarga contínua.
“Se o disjuntor desliga assim que o aparelho é acionado, há um problema no equipamento ou no circuito, como um curto-circuito. Quando o desarme ocorre após tempo prolongado de uso, a causa costuma ser a sobrecarga por múltiplos aparelhos ligados no mesmo circuito, o que aquece os cabos e pode iniciar um incêndio”, observa Prestes. O engenheiro eletricista lembra ainda que, além dos disjuntores, as residências devem ter o dispositivo Diferencial Residual (DR), responsável por interromper a corrente e proteger pessoas contra choques elétricos.
A vida útil de uma instalação elétrica residencial bem executada varia entre 10 e 15 anos, período recomendado para uma revisão geral. No entanto, o especialista do Crea-SP orienta que a inspeção e o reaperto de conexões em tomadas e interruptores sejam realizados a cada cinco anos. O Conselho alerta que intervenções no sistema elétrico devem ser conduzidas exclusivamente por profissionais habilitados e com registro ativo na autarquia, com a devida emissão da Anotação de Responsabilidade Técnica (ART), documento que formaliza a responsabilidade legal pelos serviços prestados.
Sobre o Crea-SP
Criada há 92 anos, a autarquia federal é responsável pela fiscalização, controle, orientação e aprimoramento do exercício e das atividades dos profissionais das Engenharias, Agronomia e Geociências. O Crea-SP está presente nos 645 municípios do Estado, conta com cerca de 380 mil profissionais registrados e mais de 110 mil empresas registradas.
