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Se a tecnologia faz o trabalho repetitivo, o que sobra para as pessoas?

Avanço dos agentes digitais muda a divisão de tarefas nas empresas e pode ajudar a reduzir a sobrecarga que afeta a rotina das equipes

Perfil de uma mulher jovem olhando para um robô humanoide com partes internas e circuitos visíveis, fundo escuro com pontos de luz

A cada dois minutos, um profissional é interrompido no trabalho por uma reunião, um e-mail ou uma mensagem, segundo o Work Trend Index 2025, da Microsoft. Esse excesso de interrupções ajuda a explicar por que a discussão sobre produtividade deixou de girar apenas em torno de fazer mais em menos tempo: com o avanço dos agentes de inteligência artificial, as empresas passam a olhar também para uma questão mais humana, como usar a tecnologia para reduzir a sobrecarga e devolver às equipes tempo para pensar, criar e se relacionar.

É nesse cenário que ganham espaço os chamados funcionários digitais. Em vez de substituir profissionais, esses sistemas assumem parte do trabalho operacional, sobretudo tarefas repetitivas, previsíveis e que consomem horas da jornada, enquanto as pessoas permanecem no centro das decisões, das relações e das atividades que dependem de experiência e julgamento.

A mudança acontece justamente quando o burnout ganha cada vez mais espaço nas discussões corporativas. Para a Organização Mundial da Saúde, a síndrome está ligada ao estresse crônico no ambiente de trabalho que não foi administrado adequadamente, e se manifesta por exaustão, distanciamento em relação ao trabalho e queda na eficácia profissional. A tecnologia, por si só, não resolve esse problema, mas pode ajudar a reduzir uma das principais fontes de desgaste: o volume de tarefas que fragmentam a rotina e deixam pouco espaço para o trabalho de maior valor.

Boa parte da rotina corporativa é feita de pequenas atividades que, isoladamente, parecem simples: atualizar sistemas, organizar informações, classificar solicitações, fazer acompanhamentos, responder demandas recorrentes, preparar relatórios, registrar dados. Sozinhas, elas não impressionam, mas repetidas todos os dias acabam consumindo uma fatia significativa do tempo de trabalho.

É justamente nessa camada que os agentes digitais atuam. A diferença em relação às ferramentas tradicionais de automação está na capacidade de executar uma sequência de ações a partir de regras e objetivos definidos: o sistema identifica uma solicitação, organiza as informações necessárias, realiza uma etapa operacional e encaminha ao profissional apenas o que exige análise ou decisão. Em vez de percorrer sozinho todas as etapas de um processo, o funcionário passa a atuar nos pontos em que sua participação realmente faz diferença.

Para Abraão Osher, CEO da DNAfy, empresa especializada em IA humanizada, essa transformação não deve ser lida como uma corrida para substituir profissionais.

“O objetivo não é colocar uma máquina no lugar de uma pessoa, e sim colocar a tecnologia ao lado dela. Existem tarefas que não precisam da capacidade humana para serem executadas, mas existem decisões, relações e problemas complexos que dependem de pessoas. Quando conseguimos separar essas duas coisas, o profissional deixa de gastar energia com o que é repetitivo e passa a se dedicar ao que realmente exige sua experiência”, afirma.

O impacto dessa reorganização aparece justamente nas atividades que não constam da descrição formal do cargo, mas ocupam boa parte do expediente: mensagens, atualizações, cobranças, registros e reuniões que fragmentam a atenção e dificultam a concentração em projetos mais complexos. O problema raramente está em uma tarefa isolada, e sim no acúmulo delas ao longo do dia, algo que o próprio Work Trend Index 2025 confirma ao apontar o crescimento das comunicações fora do horário comercial.

Diante disso, a pergunta relevante deixa de ser “quantas tarefas uma ferramenta consegue executar” e passa a ser “quais delas ainda precisam ser feitas por uma pessoa”.

Um vendedor, por exemplo, pode deixar para um agente o acompanhamento de contatos e a atualização de informações, concentrando sua atenção nas conversas que exigem negociação; em uma área administrativa, o sistema pode organizar dados e preparar documentos, liberando o funcionário para analisar os resultados; no atendimento, pode cuidar das demandas mais previsíveis e encaminhar à equipe as situações mais complexas. O ganho, portanto, não está necessariamente em reduzir o número de pessoas, mas em mudar o tipo de trabalho que elas realizam.

A inteligência artificial não substitui o fator humano

A ideia de que agentes digitais podem assumir parte da operação ajuda a separar dois debates que costumam aparecer misturados, automação e substituição de profissionais. São conceitos diferentes: mesmo quando um sistema executa uma tarefa de ponta a ponta, ainda é preciso definir objetivos, estabelecer limites, acompanhar resultados e decidir o que fazer diante de situações fora do padrão. Quanto mais sensível ou complexo o processo, maior tende a ser a importância da supervisão humana.

Relacionamento com clientes, liderança, negociação, criatividade, interpretação de contexto e tomada de decisões estratégicas continuam dependendo de competências que não cabem em uma sequência de comandos.

“Estamos falando de uma mudança na divisão do trabalho, não no fim do trabalho humano. A tecnologia pode executar, mas alguém precisa definir o que deve ser feito, avaliar se aquilo faz sentido e assumir a responsabilidade pelo resultado. O profissional ganha relevância justamente porque passa a dedicar mais tempo às atividades em que sua capacidade de julgamento faz diferença”, explica Osher.

Os dados do levantamento reforçam essa transformação: entre os usuários pesquisados pela Microsoft, 66% afirmam que o uso de agentes permite dedicar mais tempo a trabalhos de maior valor. Entre os usuários mais avançados, esse percentual chega a 80%.

Adotar uma nova ferramenta, por si só, não garante uma rotina mais saudável. Se a empresa automatiza uma tarefa mas mantém o mesmo volume de reuniões, cobranças, interrupções e metas, a sobrecarga continua existindo, o que reforça a importância de identificar quais atividades são de fato repetitivas, quais exigem conhecimento humano e em que pontos uma aprovação é indispensável antes de delegar a execução à tecnologia.

“Se usarmos a tecnologia apenas para fazer as pessoas trabalharem mais rápido, estaremos aproveitando uma parte muito pequena do seu potencial. O mais interessante é dar às pessoas mais tempo para pensar, criar, resolver problemas e se relacionar. A tecnologia deve ampliar a capacidade humana, não tornar o profissional dispensável”, conclui Osher.

Sobre

A DNAfy é uma empresa de tecnologia especializada na construção e implementação de infraestrutura de Inteligência Operacional Agêntica para organizações publicas e privadas. A empresa transforma conhecimento, contexto e o DNA de cada organização em inteligência conectada a operação, ampliando sua capacidade de analisar, decidir, executar e crescer sem aumentar estrutura e complexidade operacional na mesma proporção.

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