Estudo aponta que 80% dos pré-vestibulandos têm o sono comprometido, especialista explica por que passar noites em claro prejudica o rendimento e alerta para os riscos da automedicação

Com a aproximação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e dos principais vestibulares do país, milhares de estudantes intensificam o ritmo de preparação. Diante do volume de matérias a revisar, um comportamento comum é estender os livros pelas madrugadas, reduzindo as horas de descanso. No entanto, do ponto de vista neurobiológico e cognitivo, essa estratégia produz o efeito oposto ao almejado.
“Em vez de assegurar a aprovação, a privação crônica de sono compromete justamente a capacidade do cérebro de fixar conteúdos, interpretar textos e manter a estabilidade emocional”, explica Ligia Kaori Matsumoto, psicóloga do Hospital Dia M’Boi Mirim I, unidade da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo (SMS-SP) gerenciada pelo CEJAM – Centro de Estudos e Pesquisas “Dr. João Amorim”.
Essa situação foi mapeada pelo estudo científico “O custo da aprovação e exaustão acadêmica: Impactos da qualidade do sono na qualidade de vida de pré-vestibulandos”, publicado na revista Research, Society and Development. A pesquisa avaliou candidatos a vagas concorridas e revelou que 80% dos estudantes apresentam o sono severamente comprometido, marcado por demora excessiva para adormecer e fragmentação do descanso noturno. O levantamento mostrou ainda que mais de 90% dos entrevistados relataram disfunção diurna, isto é, dificuldade persistente de manter o foco, o estado de alerta e a disposição mental ao longo do dia de estudos.
A explicação para esse impacto reside no papel fisiológico do repouso na consolidação do conhecimento. De acordo com a especialista, a absorção de uma matéria não se encerra quando o estudante fecha o caderno.
Segundo ela, existe uma crença equivocada de que passar a madrugada acordado equivale a render mais. Na verdade, é durante as fases mais profundas do sono que o cérebro realiza a triagem das informações aprendidas durante o dia, fortalecendo as sinapses que formam a memória de longo prazo.
“Nesse contexto, virar a noite estudando sobrecarrega o sistema nervoso e impede esse arquivamento; o candidato tem a sensação momentânea de produtividade, mas boa parte daquele conteúdo se perde antes mesmo da prova”, adverte a profissional.
Esse déficit de repouso se torna um obstáculo diante do modelo de vestibulares longos e analíticos, que exigem até cinco horas seguidas de concentração ininterrupta. A vigília prolongada reduz a atividade no córtex pré-frontal, estrutura cerebral responsável pelo foco sustentado, pela tomada de decisões e pelo raciocínio lógico. Segundo a especialista, o cansaço acumulado se manifesta em bloqueios clássicos no momento da avaliação.
“O vestibulando privado de sono passa a reler o mesmo enunciado várias vezes sem absorver o sentido, perde agilidade nas escolhas e sofre com os conhecidos ‘brancos’. Esse bloqueio quase sempre é apenas a incapacidade temporária do cérebro esgotado de resgatar dados que haviam sido estudados, mas que não encontram rotas de acesso claras por causa da fadiga neural”, pontua.
Outro agravante é a pressão por aprovação, que muitas vezes leva os jovens para atalhos perigosos à saúde. Além do consumo excessivo de café e energéticos, a psicóloga alerta para a busca por medicamentos sem orientação profissional. “Alguns candidatos, com a intenção de melhorar a atenção e a memória, recorrem à automedicação com substâncias estimulantes. Sem prescrição e orientação médica, essa prática é extremamente perigosa, sobrecarrega o organismo e pode potencializar crises de ansiedade, taquicardia e insônia severa. ”Conforme destaca Lígia, a reta final exige redimensionar prioridades e manter uma rotina saudável, mantendo entre 8 e 10 horas de repouso por noite e desconectando-se de telas antes de deitar-se. “Fazer pausas nos estudos também é fundamental, assim como buscar preservar momentos de lazer e de convivência social. Na véspera da prova, a sugestão é procurar fazer algo leve e se distrair”, orienta. “Acima de tudo, é preciso lembrar que o vestibular é uma fase, mas não define quem se é. Respeitar os limites também é se cuidar com gentileza”, conclui.
Em caso de sintomas de insônia persistente, crises de ansiedade ou esgotamento físico, a orientação é que os estudantes e seus familiares procurem apoio especializado junto a profissionais de saúde mental.
Linha de Cuidados Saúde Mental
As unidades gerenciadas pelo CEJAM são orientadas pela Linha de Cuidado Integral em Saúde Mental, que conecta a Atenção Primária à Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) do SUS com acolhimento humanizado, equipes multiprofissionais e acompanhamento contínuo.
Sobre o CEJAM
O CEJAM – Centro de Estudos e Pesquisas “Dr. João Amorim” é uma entidade filantrópica e sem fins lucrativos. Fundada em 1991, a Instituição atua em parceria com o poder público no gerenciamento de serviços e programas de saúde em São Paulo, Rio de Janeiro, Mogi das Cruzes, Osasco, Campinas, Carapicuíba, Barueri, Franco da Rocha, Santos, São Roque, Lins, Assis, Ferraz de Vasconcelos, Pariquera-Açu, Itapevi e São José dos Campos.
A organização faz parte do Instituto Brasileiro das Organizações Sociais de Saúde (IBROSS), e tem a missão de ser instrumento transformador da vida das pessoas por meio de ações de promoção, prevenção e assistência à saúde.
O CEJAM é considerado uma Instituição de excelência no apoio ao Sistema Único de Saúde (SUS), tendo conquistado novamente, em 2026, a certificação Great Place to Work. O seu nome é uma homenagem ao Dr. João Amorim, médico obstetra e um dos fundadores da Instituição.
Neste ano, a organização lança a campanha CEJAM 2026: respeito à vida, respeito ao planeta. 365 dias cuidando do presente, transformando o futuro!
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