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Apneia do sono: quando o ronco é um sinal de alerta em crianças

Créditos: Divulgação

O ronco infantil, muitas vezes encarado como algo passageiro ou inofensivo, pode ser um sinal de alerta para um problema respiratório importante: a apneia obstrutiva do sono (AOS), condição em que a criança apresenta episódios repetidos de obstrução da passagem de ar enquanto dorme.

Embora seja mais conhecida em adultos, a apneia do sono também ocorre em crianças e pode impactar de forma significativa o desenvolvimento comportamental, físico e cognitivo, ou seja, relacionado à aprendizagem e memória.

O médico otorrinolaringologista Francisco Leite dos Santos destaca que o ronco frequente na infância não deve ser ignorado. “Em muitos casos, ele é o primeiro sinal de dificuldade para respirar durante o sono. Nem sempre isso é percebido facilmente, mas pode afetar o descanso, a atenção, o comportamento e até o crescimento da criança”, explica.

A apneia do sono na infância faz parte de um grupo de alterações chamado distúrbios respiratórios do sono, que inclui desde o ronco simples até quadros mais importantes de obstrução das vias aéreas, que são as estruturas por onde o ar passa ao respirar. Durante o sono, ocorre um relaxamento natural dos músculos da garganta. Em algumas crianças, isso pode levar ao fechamento parcial ou completo da via aérea, dificultando a passagem do ar.

Como consequência, surgem episódios repetidos de dificuldade para respirar, aumento do esforço respiratório, ou seja, a criança faz mais força para puxar o ar, e pequenos despertares ao longo da noite, mesmo que ela não perceba. Além disso, pode ocorrer queda temporária da oxigenação do sangue, que é a redução do nível de oxigênio no organismo.

“Existe um contínuo entre o ronco simples e a apneia. Quando esses episódios se repetem várias vezes durante a noite, o corpo entra em um estado de alerta constante. Isso impede que o sono seja profundo e realmente reparador”, afirma o dr. Francisco Leite.

As consequências vão além da noite, já que um sono fragmentado, ou seja, interrompido várias vezes, e a redução repetida do oxigênio, podem afetar a atenção, a memória, o comportamento e o aprendizado, além de impactar a qualidade de vida. Em casos persistentes, também podem interferir no crescimento e no equilíbrio do organismo.

Entre os sinais mais comuns do problema estão ronco alto e frequente, pausas na respiração, sono agitado, respiração pela boca, suor excessivo durante a noite e posições incomuns ao dormir. Durante o dia, a criança pode apresentar irritabilidade, dificuldade de concentração, hiperatividade e queda no rendimento escolar. Diferentemente dos adultos, nem sempre a criança apresenta sono excessivo, muitas vezes, o problema se manifesta mais como agitação e dificuldade de atenção.

A principal causa da apneia do sono na infância é o aumento das amígdalas e adenoides, estruturas localizadas na garganta e atrás do nariz que podem crescer e dificultar a passagem do ar. O problema é mais comum na infância pré-escolar e nos primeiros anos da idade escolar.

Outros fatores, como obesidade, rinite alérgica, que é a inflamação do nariz causada por alergias, e alterações no formato dos ossos da face também podem contribuir para o problema ou dificultar sua resolução.

O diagnóstico é feito, preferencialmente, por meio da polissonografia, que é um exame do sono realizado durante a noite, no qual são monitorados a respiração, o nível de oxigênio, os batimentos cardíacos e a atividade cerebral da criança. O tratamento depende da causa e da gravidade do quadro. Nos casos em que há aumento das amígdalas e adenoides, a cirurgia para retirada dessas estruturas, chamada adenotonsilectomia, costuma ser a principal forma de tratamento.

Em situações específicas, podem ser indicados o tratamento de doenças associadas, como a rinite, o uso de aparelhos que ajudam a manter a via aérea aberta durante o sono, como o CPAP, ou ajustes na rotina de sono da criança.

Embora o ronco infantil seja relativamente comum, ele não deve ser negligenciado. A avaliação médica precoce é fundamental para evitar impactos no desenvolvimento e na qualidade de vida da criança. “Quanto mais cedo identificamos o problema, maiores são as chances de controle adequado e de evitar consequências ao longo do desenvolvimento. O cuidado com o sono é parte essencial da saúde infantil”, conclui o médico.